Nilto Maciel e Literatura – niltomaciel@uol.com.br


02/07/2009


Noctívago

Inocêncio de Melo Filho

 

Quero chorar com os cães -

Cães solitários...

Nas ruas desertas caminharei,

Aliar-me-ei aos vigias,

Para que a noite não caia nas mãos dos vândalos...

Seguirei o cio da brisa,

que agitará o meu sexo,

e me conduzirá à mulher...

Que saltará dos olhos da lua...

 

Veja mais no blog transitoriodiamante.blogspot.com

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Escrito por Nilto Maciel às 17h37
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29/06/2009


Resenhas



TALHE RUPESTRE, de Paulo de Tarso Correia de Melo:

É um inestimável presente para a literatura brasileira a publicação de Talhe
rupestre, volume organizado por Carlos Newton Júnior que reúne a poesia de
Paulo de Tarso Correia de Melo. Nascido em Natal a 5 de abril de 1944, o
poeta potiguar deve ter escrito seus primeiros versos “provavelmente por
volta dos dezesseis” anos, postula Carlos Newton no texto introdutório à
obra, mas só publicou seu primeiro livro – cujo título era justamente Talhe
rupestre – quando se aproximava dos cinquenta.

[texto completo:

http://marques-samyn.blogspot.com/2009/06/talhe-rupestre.html]

ZONAS ÚMIDAS, de Charlotte Roche

 

Com a necessária competência, é perfeitamente possível elaborar bons textos a
partir de protagonistas medíocres. Muito longe disso, contudo, está Zonas
úmidas, primeiro romance de Charlotte Roche, cuja protagonista é a medíocre –
e desinteressante – Helen Memel. Helen é uma jovem de dezoito anos que, após
um acidente durante uma tentativa de raspagem de suas áreas íntimas, é
internada a fim de tratar uma fissura anal. O romance decorre durante a
internação da jovem, período durante o qual ela desfia um rol de aventuras
sexuais, cultiva obsessões pelo seu próprio corpo e detalha sua relação
frustrada com os pais. Sem um tratamento literário adequado, contudo, o que
disso resulta é um texto repetitivo, frágil e previsível.

[texto completo:

http://marques-samyn.blogspot.com/2009/06/zonas-umidas.html]
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Escrito por Nilto Maciel às 16h51
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19/06/2009


Jornal do Enéas

Em Balneário Camboriú, SC, meu velho amigo (desde os tempos do jornal Intercâmbio - início dos anos 1970 - e da revista O Saco) Enéas Athanázio edita o pequeno Jornal do Enéas. O número 24, referente a junho de 2009, se abre com artigo do cearense Dimas Macedo: comenta o romance E se, de repente, eles parassem..., de Raquel Machado. Na página seguinte, um conto de Olga Savary: "O rei dos lençóis", que publiquei há anos na revista Literatura, que se finou há pouco. A p. 3 traz dois poemas: de Luis Santos e Adair José de Aguiar. A seguinte, poema de C. Ronald e artigo - "Novo livro de C. Ronald", de Vinícius Alves, a respeito do livro Um lugar para os dois. A quinta página  mostra três fotos e um desenho relativos ao episódio histórico de Contestado. Ao lado, artigo de Betty Sanson: "Perfume Volpato". Com "Os três fins d'A barca de Gleyre", Trajano Pereira da Silva relembra Lobato. Em "A epidemia de laptopirose", Sérgio Martins Pandolfo brinca com o termo laptop (p. 7). Para fechar o número, conto de Enéas: "Olhos esbugalhados", e breve comentário de Juliana Freitas ao livro José Athanázio, meu pai.

O endereço de Eneás é e.atha@terra.com.br

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Escrito por Nilto Maciel às 16h13
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17/06/2009


Vida literária

É este o título do novo livro do mineiro-brasiliense Napoleão Valadares. A obra é de 2009 (Maranata Editora). Trata-se de obra para teatro, em quatro atos. No primeiro, alguns escritores estão reunidos na Livraria Dom Bosco, na capital federal. É 21 de abril de 1963. Cria-se uma entidade: Associação Nacional de Escritores. O segundo ato se dá em 1987 e o local da reunião é o Restaurante Xiquexique. O terceiro se dá em 1990, no Restaurante Macambira. No último ato os escritores se encontram na sede da ANE e o ano é 1996, ano da inauguração do prédio. Napoleão procura retratar ou recontar aqueles encontros. Alguns já não vivem, como José Hélder de Souza, Zita de Andrade Lima, Fernando Mendes Viana, Almeida Fischer e Antonio Roberval Miketen. Mas a ANE está mais viva do que nunca.

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Escrito por Nilto Maciel às 14h53
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15/06/2009


Never more

Inocêncio de Melo Filho

Para José Alcides Pinto

Nunca mais festejarás minha chegada
Nunca mais nos diremos palavras belas
Nunca mais teceremos elogios mútuos
Nunca mais tomaremos chá entre livros
E palavras
Nunca mais caminharei ao seu lado
Nunca mais me lerás Rimbaud.
Nunca mais deixarei de ser saudoso
E os meus olhos terão sempre lágrimas
Por companhia...

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Escrito por Nilto Maciel às 14h44
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13/06/2009


Poesia nossa de cada dia

Recebi de José Feldman o livro Poesia nossa de cada dia (XIV Coletânea de poesias ALIUBI), referente a 2008. ALIUBI quer dizer Associação dos Literatos de Ubiratã, Paraná. A entidade completou 20 anos. Além de poetas de todo o Brasil, a coletânea apresenta poemas de poetas estrangeiros convidados, como Jacinta Morais, do Timor Leste. A associação é dirigida por Joacir Zen Ranieri. O site é www.aliubi.hpg.com.br e o endereço eletrônico aliubinet@ig.com.br

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Escrito por Nilto Maciel às 14h40
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12/06/2009


Lira do Rio

O projeto literário "Lira do Rio" tem como objetivo compor um panorama poético
do Rio de Janeiro, com versos inspirados em cenários cariocas, passagens da
história da cidade e "poemas-crônicas", sempre com citações toponímicas.
Idealizado por Henrique Marques-Samyn, essa ideia teve como ponto de partida
a publicação, em 2006, do livro "Poemário do desterro": comentando o livro,
André Seffrin ressaltou o "amoroso convívio por ruas, seres e carnavais do
Rio de Janeiro", afirmando: "[Henrique Marques-Samyn] É um poeta da cidade do
Rio, como o foi outrora Mário Pederneiras"; já Alexei Bueno destacou a "visão
muito centrada na ambiência e na história do Rio de Janeiro". Esse projeto
continua em "Lira do Rio": à maneira de uma "obra em progresso", o blog reúne
as poesias publicadas em "Poemário do desterro" e textos inéditos, de forma a
construir aos poucos um amplo "mapa poético" do Rio de Janeiro a ser,
futuramente, publicado em livro. "Lira do Rio" pode ser acessado em
http://liradorio.blogspot.com .

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Escrito por Nilto Maciel às 14h37
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11/06/2009


A Trigésima Terceira Leva da Diversos Afins apresenta suas faces marcadas pela Arte e Literatura. As vias culturais de agora trazem:

- o registro vivo de nossas densidades pelas lentes de Valéria Simões

- a escalada sensível dos versos de Micheliny Verunschk, Daniel Mazza, Edson Cruz, Dheyne de Souza, João Filho, Luiz Otávio Oliani e José Gil

- uma entrevista com o poeta e editor Edson Cruz

- Augusto Boal revisitado nas linhas de Ana Lúcia Vasconcelos

- recortes de vida nos contos de Regina M. A. Machado e Bernardo Linhares.

Muito mais em:

http://diversos-afins.blogspot.com

Saudações culturais,

Fabrício Brandão & Leila Andrade - LEVEIROS

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Escrito por Nilto Maciel às 13h38
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09/06/2009


Uma sujeita esquisita

Cissa de Oliveira publicou o segundo livro de crônicas: Uma sujeita esquisita (Campinas, SP, 2009). Cissa é cearense, mas mora naquela cidade paulista, onde exerce a profissão de bióloga. Seu primeiro livro foi A pontinha das páginas, em 2007. O escritor Luiz Carlos Amorim observa: "Os temas são os mais diversos e as abordagens as mais interessantes e inusitadas, o que agrega mais valor literário ao trablho de Cissa. (...) Tudo é assunto para as crônicas de Cissa e ela sabe como contar uma boa história, com aquele jeito coloquial que lhe é tão peculiar, que dá gosto ouvir (ou ler)". Rosa Pena também comenta a arte de Cissa de Oliveira: "A ironia bem-humorada, a arte nata ou bem-nascida da vontade de dizer ao mundo para que veio, a coragem de libertar a imaginação embriagada de lirismo, o olhar astuto nesse circo-cidade onde só sobrevivem aqueles com mestrado em malabarismo, um sorriso no bolso da calça, um salário suado estampado na cara e lá vai ela, inquieta, escrever mais algumas short-stories." Cissa gosta de conversar, como todo bom cronista. Escrevam para cissa.oliveira@gmail.com

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Escrito por Nilto Maciel às 14h08
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08/06/2009


Prêmio de Literatura

Com o objetivo de estimular a arte literária e ajudar a divulgação de novos nomes na literatura brasileira contemporânea, O CAL – Centro de Ação Literária de Campos do Jordão-  promove o I PRÊMIO ARAUCÁRIA DE LITERATURA, Categorias Poesia e Conto.  Regulamento e outras informações:   http://premioaraucaria.blogspot.com.
Solicitamos sua colaboração através da participação e divulgação do Evento.

Benilson Toniolo

(12) 3662-3763 / 9117-6739
 

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Escrito por Nilto Maciel às 14h57
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07/06/2009


Novo

Teresinka Pereira

 

Se o passado

é uma sombra com lágrimas

o amante de hoje

pode pressagiar

encantadas luas,

névoas de cores,

versos frescos de sonhos.

 

Tudo novo e simples:

beijos úmidos de orvalho

repartindo rapidamente

o relâmpago de viver.

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Escrito por Nilto Maciel às 14h53
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04/06/2009


SAUDAÇÃO A ARMÉNIO VIEIRA

Henrique Marques-Samyn

O mundo dos prêmios literários divide-se basicamente em três territórios: a
vasta região dos favorecimentos, o levemente menor campo das arbitrariedades
e o pequenino vale da justiça. Nesse último território, inscrevem-se os
raríssimos prêmios que merecem ser levados a sério: os que efetivamente são
atribuídos levando-se em conta o mérito dos autores escolhidos, e que cumpre
ademais a missão de revelar grandes valores esquecidos ou ignorados. É isso o
que tem feito o Prêmio Camões, consolidado como um dos mais importantes da
contemporaneidade precisamente por galardoar ora figuras cujo mérito é
indiscutível e reconhecido – como João Ubaldo, Lygia Fagundes Telles e
Eugénio de Andrade, por exemplo – ora valorosas figuras que carecem de uma
justa projeção internacional – como o último premiado, o cabo-verdiano
Arménio Vieira. Congratulações, portanto, ao júri, que neste ano foi formado
por Marco Lucchesi e Ruy Espinheira Filho, brasileiros; José Seabra Pereira e
Helena Buescu, portugueses; pelo moçambicano Luiz Carlos Patraquim e por
Corsino Antônio Fortes, conterrâneo de Arménio Vieira que, pode-se supor,
deve ter sido decisivo para a escolha.

UM POEMA E UMA (BREVE) LEITURA

POEMA

Mar! Mar!
Mar! Mar!

Quem sentiu mar?

Não o mar azul
de caravelas ao largo
e marinheiros valentes

Não o mar de todos os ruídos
de ondas
que estalam na praia

Não o mar salgado
dos pássaros marinhos
de conchas
areias
e algas do mar

Mar!

Raiva-angústia
de revolta contida

Mar!

Siléncio-espuma
de lábios sangrados
e dentes partidos

Mar!
do não-repartido
e do sonho afrontado

Mar!

Quem sentiu mar?

(1962; em «Vozes poéticas da lusofonia», coord. Alice Brás e Armandina Maia,
1999)


Um instigante jogo literário abre o poema: a incessante invocação do mar, um
dos mais importantes motivos na história da poesia lusófona – presente,
aliás, já entre os trovadores medievais – é interrompida por uma provocante
indagação. Ao questionar “Quem sentiu mar?”, o poeta rompe o sentido positivo
da evocação, abrindo espaço para as negações que surgem nas estrofes
seguintes e que conduzem a uma problematização do motivo central do poema.
O “mar” sobre o qual se fala aqui não é aquele mar histórico ou presente nas
epopeias (“o mar azul / de caravelas ao largo / e marinheiros valentes”), nem
o mar como um cenário percebido por um olhar impressionista ou naturalista
(“Não o mar de todos os ruídos / de ondas / que estalam na praia // Não o mar
salgado / dos pássaros marinhos / de conchas / areias / e algas do mar”);
trata-se ainda de outra coisa. A retomada do tom invocatório (“Mar!”) abre
finalmente espaço para que o poeta explicite que esse é um mar-símbolo,
projeção anímica da própria subjetividade humana, representação que nada tem
de nostálgica: trata-se de um mar revolto (“Raiva-angústia / de revolta
contida”) e violento (“ Siléncio-espuma / de lábios sangrados / e dentes
partidos”), espelho portanto de um estado da alma cujo sentido político logo
se torna claro: é este o mar “do não-repartido / e do sonho afrontado”;
portanto, o mar daqueles que ousam sublevar-se e lançar-se ao combate, ainda
que haja nisso a expectativa da destruição – como as ondas que arrebentam na
praia, esfazendo-se em espuma. E é assim, inteiramente ressignificada, que a
pergunta ressurge no desfecho do poema: “Quem sentiu mar?” Quem sentiu em si
esse mar, quem se sentiu como o mar?

-- 
Blog: http://marques-samyn.blogspot.com
Twitter: http://twitter.com/marques_samyn 

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Escrito por Nilto Maciel às 14h16
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02/06/2009


Faca palavra


Clauder Arcanjo

A potência da faca
habita no que entorta:
lâmina enferrujada,
nume em resposta.
A força da palavra
reside no que sangra:
punhal sem gume,
letra, enfim, tatuada.

Macaé-RJ, 23/05/2009

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Escrito por Nilto Maciel às 15h11
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24/05/2009


Rosani Abou Adal será homenageada no Sarau Sopa de Letrinhas

 

Rosani Abou Adal, escritora, jornalista, publicitária, editora do jornal Linguagem Viva, 2ª vice-presidente do Sindicato dos Escritores no Estado de São Paulo, será a poeta homenageada no sarau do Sopa de Letrinhas, no dia 29 de maio, sexta-feira, a partir das 21:30 horas, no Villaggio Café, Rua Teodoro Sampaio, 1229, em Pinheiros, São Paulo.

O Sarau Sopa de Letrinhas, que acontece sempre na última sexta-feira do mês, é coordenado pelo compositor, músico, poeta e agitador cultural Vlado Lima. http://clubecaiubi.ning.com/profile/sopadeletrinhas

Rosani Abou Adal, membro da Academia de Letras de Campos do Jordão e da União Brasileira de Escritores, tem poemas traduzidos para o francês por Jean Paul Mestas e para o italiano por Renzo Mazzone. Foi agraciada com o Prêmio Ribeiro Couto - UBE/RJ, com o livro De Corpo e Verde e com o Mulheres do Mercado, da Prefeitura do Município de São Paulo, entre outros.

A editora  jornal literário Linguagem Viva é autora dos livros de poemas Mensagens do Momento, De Corpo e Verde e Catedral do Silêncio. Participou de antologias no Brasil, França e Portugal.  

http://clubecaiubi.ning.com/profile/RosaniAbouAdal

  www.linguagemviva.com.br/rosani 

rosani@linguagemviva.com.br

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Escrito por Nilto Maciel às 13h22
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21/05/2009


Antes de viajar

Urik Paiva

 

Penso na estrada sempre como subida, desvio da coisa horizonte. Isso é noção de norte, que pode ser norte mesmo ou leste ou oeste. Azul norte céu: rumo. Sou fiel aos princípios do vento. Mas sei plantar passos em certos sonos da vida. Por isso, ponho coisas na mala vermelha: camisas pretas para a noite, camisas brancas para o calor dos centros, o perfume de sempre, aquele mesmo. Máquina fotográfica. Para os que não vão. Uma foto é tão certa, não é? As coisas estão lá, incontestes. Aqui, na vida da memória, tudo possui a cadência do imaginário: pode ser e pode não ser. Que se diga logo: a memória é uma fábrica de lugares imaginários. Eles não existem, mas estão sempre lá: lugar-pessoa, lugar-coisa ou lugar-lugar. Lugar-fato, também. E como se movem, como fluem, dentro da vastidão. Essa dança é um prazer, um momento desses de virar os olhos. A pele do viajante é desejosa de ligamentos: fios membranosos em curva ascendente. Podem se ligar com muitas pessoas, com poucas pessoas ou com apenas uma pessoa, o próprio viajante: fio embutido, novíssima tecnologia pré-histórica. É quando o conhecer se transforma em conhecer-se. Sim, toda viagem é feita de espantos, reais ou forjados – olhos arregalados diante de qualquer coisa. E lembrar-se disso, tempos depois, abrirá sorrisos. Olho para o céu, aviões caminham a passos largos. Mas eu também tenho asas: na mente. Não adianta apenas costurar asas na mala ou nos pés: é a mente que precisa voar. E nem é preciso conceber a poesia de um vôo cego: o meu tem data, hora e destino. Talvez a essência da partida seja o prazer em construir uma memória, por mais imaginária que seja. Pois parto em busca da duração do infinito, da chuva seca da primavera. Parto no navio-pássaro de fogo, ao som de Stravinsky e de algum violino da Infraero. Vou à procura de um lugar imaginário entre o rio e o mar da consciência. Eis o norte, eis o setentrional, a Ursa Maior do meu céu de agora.

 

15 de maio de 2009



urikpaiva@yahoo.com.br

www.literariedades.blogspot.com
(085) 8749-8561

Escrito por Nilto Maciel às 14h27
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