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DE HERÓIS E BANDIDOS
Nilto Maciel
Eu não sabia direito o que havia nos gibis. Sabia, sim, da proibição de os ver, folhear, tocar, ler. Apesar disso, na rua, nas calçadas os gibis andavam de mão em mão, sebentos, sujos, rasgados, lidos às escondidas. Como surgiam, quem os vendia, quem os adquiria? Os meninos mais velhos, mais calejados, mais danados tinham o primeiro acesso a esses objetos tão desejados. Os outros, como eu, ficávamos para depois.
Não sei quando me aproximei do primeiro gibi. Lembro, sim, de Búfalo Bill, Tom Mix, Roy Rogers, Bill Elliott, Rocky Lane, Durango Kid, Hopalong Cassidy, Flecha Ligeira, Cavaleiro Negro, Zorro, O Fantasma, Capitão Marvel, Tarzan, Sobrinhos do Capitão, Mandrake e tantos outros heróis.
As histórias em quadrinhos seriam reproduções mais baratas, condensadas das histórias do far-west cinematográfico. Seja como for, fascinei-me pelos heróis dos gibis desde a primeira visão-leitura e durante muito tempo me deliciei com as suas aventuras. Eu odiava os índios americanos, apaches, comanches, sioux e outros. Seriam comparsas de bandidos, assaltantes de diligências, carruagens, assassinos. E na escola aprendíamos a louvar e admirar Borba Gato, Raposo Tavares, Anhanguera, entradas e bandeiras. Os índios – selvagens, brutos – significavam estorvo à civilização. Ensinaram-nos isso: matar índio resultava em novos caminhos. Índio representava atraso, fraqueza. Bandeirante significava progresso, força. Todos super-homens. Matavam mil índios num minuto.
Quando menino, poucas vezes freqüentei cinema, embora houvesse uma sala de exibição em Baturité. Se não me engano, o Cine Odeon. Meus amigos, no entanto, conheciam todos os cow-boys, os far-west. Um deles descobriu uma maneira de ver pedaços de filmes. Conseguia, talvez no lixo, alguns centímetros de fitas. De lâmpada comum queimada arrancava-se a tampa e retirava-se o conteúdo. A seguir, enchia-se com água o pequeno recipiente. Contra a luz de uma lâmpada acesa, punha-se a fita junto à lâmpada queimada, resultando a projeção do negativo na parede. Como uma simples fotografia.
Uma noite a direção do Colégio Salesiano comemorou não sei que data. E apresentou um filme aos alunos. Um documentário sobre a Revolução Cubana. Produção do governo norte-americano. Cadeiras e bancos foram dispostos no pátio, ao ar livre. O serviço de alto-falante transmitia valsas de Strauss. Enquanto isso, eu e alguns amigos "descobríamos" o outro lado da escola. Aproveitamos a escuridão (como a dos cinemas) e, sorrateiramente, descemos uma escada. Chegamos a outro pátio, reservado aos alunos internos. De um lado havia um conjunto de salas. Talvez dormitórios. Não tenho certeza de termos arrombado armários. Mas aquilo nos emocionou sobremaneira. E fomos bandidos por alguns minutos.
Em Fortaleza, adolescente, vivia nos cinemas. Todos os sábados e domingos íamos eu e meus irmãos assistir a filmes nos cines Moderno e Majestic. Com a maior gravidade, como se fôssemos à igreja. Era um passeio, uma diversão. Saíamos de casa cedo. E não nos importávamos com o tipo de filme. Geralmente westerns, faroestes, tarzans, filmes sobre guerras. Aprendi a odiar japoneses e alemães — os bandidos da 2ª Guerra. E a venerar norte-americanos. De volta, brincávamos de imitar os atores. Falávamos inglês, como eles: "What’s your name?" "My name is Barrabás."
No entanto, meu fascínio maior cedo se voltou para as histórias nas selvas africanas, terras de pigmeus e animais ferozes. E para ambientes sombrios, fantásticos, irreais, de seres como o Fantasma.
Escrito por Nilto Maciel às 14h16
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PRÊMIOS E AGRURAS
Nilto Maciel
Não é nada fácil ganhar prêmios literários. Concorrem a eles centenas, às vezes milhares de escritores e escrevinhadores. Seriam necessários dezenas de julgadores. Ou alguns anos, para que os três (quase sempre são apenas três) leitores lessem tudo. Assim, não há tempo para a leitura de todas as obras inscritas. Resultado: terminam ganhando os mais íntimos da sorte. Claro que a maioria não está incluída nesse rol. Suas obras não chegam a participar do jogo. São jogadas ao lixo antes do início do jogo. Uma seleção prévia – a leitura de um parágrafo, de duas ou três frases, versos – é o suficiente para que o julgador tenha idéia do valor da obra inteira. Mas não quero me alongar nessa história de leituras e sortes. Seria uma novela sem fim. Vou, pois, passar à fase seguinte do concurso: o recebimento dos prêmios. Para tanto, tenho a contar quatro historiazinhas das quais fui protagonista ou participante.
Primeira história: em 1990 participei do "XXII Concurso Nacional de Literatura", categoria romance, promovido pela Secretaria de Cultura do Distrito Federal. Inscrevi o livro A Última Noite de Helena. Uma tarde, enfastiado de processos, crimes, petições, abri um jornal. A notícia do prêmio me chamou a atenção, apesar de não me lembrar mais de minha participação no concurso. O redator anunciava os nomes dos ganhadores e os títulos das obras premiadas nas diversas categorias. Havia a foto de um homem que eu desconhecia e uma legenda: "fulano de tal, vencedor na categoria romance, com o livro A Última Noite de Helena". Tomei um susto. Ora essa, alguém havia escrito um romance sob o mesmo título do meu. Não acreditei em coincidências. Como sou sempre pessimista, aventei a hipótese da troca dos títulos dos livros. O ganhador seria mesmo aquele homem da foto. O equívoco teria sido cometido apenas em relação ao título do romance. Alguém teria levado à redação do jornal a relação dos títulos concorrentes. No dia seguinte tive direito a foto, aliás, em maior espaço do que o ocupado pelo outro, e a falar do engano cometido e de minha vida de escritor.
A segunda parte da história é menos cômica: de posse do cheque, fui ao banco. O caixa pediu minha cédula de identidade e berrou: "este nome não confere com o nome constante do cheque." No cheque haviam escrito "Nilto Maciel". O "Fernando" havia sido suprimido. Não recebi o dinheiro, depois de passar duas horas na fila. Recebi-o, sim, dias depois.
Segunda história: participei do "Concurso Graciliano Ramos de Romance (1992-1993)", promovido pelo Governo do Estado de Alagoas, com o livro Os Luzeiros do Mundo. A notícia me chegou por telefone. Porém fui chamado por uma vizinha, para onde haviam ligado. Deram-me parabéns; aguardasse comunicação por escrito. O prêmio consistia em algum dinheiro e na edição do romance. Aguardei a comunicação por alguns dias. Depois esperei o cheque. Passaram-se dias, semanas. Decidi mandar cartas e telefonar. Aquelas não foram respondidas. Ao telefone o outro, a outra nunca sabiam de nada. "Isso deve ser com o doutor sicrano; aguarde um minuto, por favor." Passavam-se minutos e mais minutos. "Ele mandou dizer que é para o senhor aguardar o cheque aí em Brasília." Gastei uma fortuna com telefonemas. E finalmente o cheque bateu à minha porta. A edição do romance, no entanto, até hoje não se fez realidade.
Terceira história: em 1996 participei do "Prêmio Cruz e Sousa de Literatura", promovido pelo Governo do Estado de Santa Catarina. Enviei o romance A Rosa Gótica. O prêmio consistia em algum dinheiro e na edição do livro. Fiquei sabedor da premiação por um telegrama passado pelo poeta Iaponan Soares. Gato escaldado, peguei um avião e fui a Florianópolis. Levava comigo também uma procuração passada pelo poeta Anderson Braga Horta, ganhador do prêmio de dramaturgia. Apresentei o documento a uma funcionária, que guardou segredo disso. Na solenidade de entrega dos prêmios, o primeiro a ser chamado foi exatamente o Anderson. Dirigi-me à mesa, o governador me apertou a mão, fui aplaudido pelo pequeno público e voltei à cadeira. Mal me sentava, o orador anunciou o prêmio de romance. Ainda com o cheque do Anderson à mão, me encaminhei à mesa. Houve estupefação geral. Como explicar aquilo? Eu era Anderson ou Nilto? Iaponan tratou de me socorrer, aos gritos: "Este é o Nilto mesmo, eu garanto." O livro ainda não foi editado .
Quarta história: também em 1996 participei do "VI Prêmio Literário Cidade de Fortaleza", promovido pela Fundação Cultural da capital cearense. Enviei o conto "Apontamentos para um ensaio". A notícia da premiação me foi dada pelo poeta Diogo Fontenelle. Viajei a Fortaleza em janeiro de 1997. Falaram-me da esmagadora vitória eleitoral do prefeito situacionista, dos enormes gastos com a campanha eleitoral e, logicamente, da falta de recursos financeiros para saldar compromissos assumidos pelo antecessor. Portanto, não havia dinheiro para o pagamento dos prêmios literários. Fui procurado por inúmeros jornalistas e instado a fazer de público a cobrança da dívida prefeitoral. Às vésperas (dois meses depois) de regressar a Brasília, exatamente duas horas antes da partida do avião, recebi o tão esperado cheque. O livro, que reuniria meu conto e os nove que se seguiram ao meu em ordem de classificação, ainda espera por editor.
Apesar dessas agruras, sou um dos milhares de escritores que acreditam em concursos literários, não dão ouvidos ao azar e têm certeza de que suas obras nunca irão para o lixo. E sabem não ser nada fácil ganhar prêmios literários. Ganhar, receber e ver cumpridos os regulamentos. Sobretudo o artigo que diz: "o prêmio consiste em... e na publicação da obra vencedora."
Agora peço, ao leitor paciente, permissão para me retirar. Preciso ler direitinho um regulamento de concurso literário que me chegou hoje.
Escrito por Nilto Maciel às 14h19
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Pedaço de ferro
Apareceu-me um dia um pedaço de ferro, cerca de dez centímetros, cheio de dentes. Talvez resto de algum moinho. Em vão pergunto onde fui achá-lo, para dele fazer minha primeira importante propriedade e meu mais antigo e rico brinquedo. Ele virava boi, cavalo, trenzinho, caminhão, arma e instrumento de trabalho. Por vezes mugia, irado, a quebrar cercas. Mais além trotava doidamente, dando coices a torto e a direito. No mesmo instante soltava baforadas de enegrecer o céu, apitava na curva da estrada, a anunciar sua chegada ao povoado. Rápido, carregava na carroceria toneladas de cereais, atolando-se nos caminhos tortuosos.
Com ele, eu destruía formigueiros, partia minhocas, esmagava besouros, destroçava bois, cabritos e galinhas da fazenda imaginária. Cavava buracos e poços, mudava o curso dos rios, abria picadas, derrubava florestas, revolvia montanhas.
Muita vez perdia a essência mineral e se metamorfoseava em bicho bruto, todo carnes pesadas, ossatura descomunal, sangue rubro a movimentar-lhe o colosso. E rugia, monstro de mil pés a rolar sobre a terra, a afugentar o gado dos currais, a ameaçar todos os que se pusessem à sua frente, incontrolável e mau. O terror solto no quintal, antes tão quieto.
Com ele, eu construía estradas que ora cortavam o rio, ora lhe seguiam paralelas, e atravessavam de ponta a ponta minhas muitas terras. Meu imenso latifúndio, habitado por feras, criações, bichos domésticos e uma população variável. Eu, o coronel, a mandar e desmandar. A dar ordens absurdas e caprichosas. Faça-se uma ponte aqui. E vinha minha mãe a me contrariar: "Saiam já de perto desse esgoto!"
Naquele chão quase sempre úmido, algumas vezes ressequido, eu costumava ser tudo na vida: fazendeiro, motorista, vaqueiro, trapezista. De caminhos de sete palmos eu fazia estradas intermináveis por onde andavam boiadas inteiras, tangidas por vaqueiros encourados e tostados de sol, corajosos sobre cavalos ligeiros. Soltos no campo, misturados ao gado, eu criava porcos, galinhas e capotes, que logo mandava matar.
Por horas, desapareciam todos os animais e surgiam caminhões transportando cargas. O coronel carrancudo virava dono de frotas de carros e, a seguir, precário chofer a girar o mundo na boléia de um velho Chevrolet.
Repentinamente, esquecia o transporte e me dedicava de todo à matéria-prima transportada. Saía berrando, pelos quatro cantos, novas ordens absurdas. Para fulano, sicrano e beltrano irem buscar tantas sacas de feijão, arroz e milho. Um regressava de mãos abanando, outro dando desculpas moles, terceiro feito palerma. Então eu tomava a súbita decisão de arranjar, por cima de pau e pedra, conteúdos para as carrocerias vazias. Corria a casa, revolvia malas, vasculhava a despensa, à cata de um lenço, uma caixa de fósforos, uma boneca de pano. A esta cortava cabeça, braços e pernas, e consumava-se uma perfeita saca de arroz ou feijão.
Bicho ou máquina, aquele pedaço de ferro escalava morros, atolava-se na lama, pesadão, impetuoso, sem rumo. Adquiria propriedades fantásticas e miraculosas, voando sem asas, falando sem boca, andando sem pés. Crescia assustadoramente, assombroso e terrível, o só desejo de alçar-se à altura dos muros, espiar os quintais vizinhos, descobrir segredos e mistérios, meter a mão nas parreiras, laranjeiras e bananeiras.
Findo o chafurdo de tantas horas, cansada a mão que o fazia tão danado, aquietava-se o ferro-para-toda-obra, e eu, sua alma, o lavava e o enxugava no calção sujo como o chão.
Mamãe ameaçava jogar no lixo aquela porcaria. E me repreendia e batia, irada com tanta sujeira. Por precaução, eu corria a conversar com ele – o ferro –, alisar-lhe a crina fria, o lombo negro, sua carcaça ameaçada. Falava-lhe ao ouvido, abraçava-o, beijava-o. E, para dormir sossegado, metia-o na terra, escondia-o detrás de pedras e tijolos.
Tempos depois, auscultei-lhe o coração cansado e percebi-lhe a moléstia fatal. Os sintomas eram evidentes à primeira vista: amarelecia e, sempre que o chamava à brincadeira, sujava-me todo de um borrão doentio. Tratava-o com muita água e sabão, e nada de cura. Desiludido, abandonei-o aos ventos. E nunca mais o vi. Busquei-o por todo o quintal, perguntando às pedras pelo amigo desterrado. Tudo se calava à minha angústia. Em vão eu virava e revirava o chão. Havia morrido decerto o pobre boi, o coitado do cavalo, o bichinho-papão de meus delírios.
A certeza de sua morte me foi dada por mamãe: "Estava enferrujado, menino."
Por túmulo teve o monturo, sem reza e sem vela, sem caixão e sem choro. Cemitério distante, para além dos fundos das casas, um buraco fundo onde se jogava o lixo e onde os urubus se refestelavam.
Escrito por Nilto Maciel às 15h43
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A melhor notícia
nILTO mACIEL
A morte é a melhor notícia, até para alguns mortos, que logo depois confirmarão o fato nos jornais. Uns deixam a confirmação para o dia subseqüente, a semana seguinte, mais um mês. Outros nunca dão a confirmação, sumidos nos mares, nas montanhas, florestas. São os desaparecidos. Os vivos nem ficam sabendo se aconteceu mesmo a morte: onde está o corpo? Ninguém sabe. Terá morrido de verdade? Só acredito vendo.
A morte é a melhor notícia. Se for morto importante, os donos dos jornais, das rádios e televisões riem à toa. As edições são reduplicadas. As manchetes tomam todas as primeiras páginas. Estampa-se imensa foto colorida do defunto. Televisões e rádios passam dias repetindo a morte súbita da autoridade, do cantor, do rico. Espicham a notícia noite afora. Fazem da morte uma novela interminável. Capítulo XX: "Como caiu o avião. Destroços em alto mar. Tubarões sedentos de sangue."
Templos se lotam no dia do enterro. Gente de todos os bairros disposta a chorar rios de lágrimas e rezar todas as orações pelo morto. No velório choram, gritam, morrem, tentam beijar a testa enrijecida. Os parentes a amigos do falecido se vestem de preto e cobrem os olhos com óculos escuros. Muitos desmaiam, as câmeras de televisão focalizam o instante crucial da dor do desconhecido.
A caminho do cemitério, multidões saem às ruas, debruçam-se nas janelas, sobem aos viadutos. Nas casas, ruas, fábricas e bancos todos lamentam a morte do fulano. Comoção geral, feriado nacional, bandeira a meio-mastro, música fúnebre nas emissoras. Vende-se tudo nas ruas: bandeirolas, fitinhas, bandeiras do time de futebol pelo qual torcia o morto. Fofoqueiros têm motivos de sobra para conversar e passear. Nas filas, nas esperas, nos passeios, nas praças o assunto é um só: a morte de fulano. Há descobertas sensacionais: o extinto amava uma francesa nova, enquanto a esposa velha lamentava.
Na missa de sétimo dia, se o morto tiver sido católico, a notícia precisa ser renovada. O falecido está caindo no esquecimento. Se for cantor, compositor, tocam-se suas músicas mais conhecidas. Nas lojas aumentam-se os preços dos produtos. Os jornais publicam pôsteres coloridos: fotos de quando o fulano ou a fulana tinham 20 anos.
Inspiração também a morte dá: poetas fazem versos lamentosos com a palavra morte e a palavra vida. Repentistas aparecem de repente nas praças, tocando e cantando homenagens ao defunto.
Todos lucram com a morte. O anônimo coveiro finalmente é entrevistado, com direito a voz e a inventar lendas; o vendedor de velas se ilumina; o jornaleiro grita emocionado; a rezadeira chora por quem foi.
A morte é a melhor notícia. A morte inventa mitos, lendas, sagas, cria religiões, funda igrejas. Cristo morreu; o Cristianismo nasceu. A morte acaba guerras. Depois de Hitler, a paz. A morte acaba eras. Sem Nero, Roma se livra dos incendiários. Decapitaram Conselheiro, desapareceu Canudos. A morte acaba ciclos. Mataram Lampião, acabou-se o cangaço. A morte inicia eras. Um tiro em Vargas dá início à era pós-Vargas.
Se o morto for pobre, anônimo, seus parentes e amigos lamentarão: Tão bom, mas Deus assim o quis. Os privilegiados serão notícia no obituário ou na página policial.
Quando queimaram um índio em Brasília, o mundo inteiro protestou, embora queimem índios desde Cabral, Hernán Cortés, Pizarro. Queimar mendigo também dá notícia, embora os assassinos nunca sejam encontrados.
Se criança morre de fome e sede, nos sertões e nas favelas, a morte não será notícia, mas apenas motivo de estudo e número na estatística. Os pais dirão: Deus quis assim. Dará lugar a outros. Melhor notícia só o nascimento do próximo mortal: José, Maria, Sebastião.
Escrito por Nilto Maciel às 13h01
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Trechos de carta enviada a mim por um leitor da cidade de Itaocara, RJ: "nem sequer uma livraria temos na cidade"; "dias atrás, uma pessoa amiga de nossa família e que reside na vizinha cidade de Cambuci nos deu para ler um excelente, primoroso e magnífico conto de autoria do senhor, excelente conto esse intitulado ‘Aqueles homens tristes’ (...) nunca tínhamos lido conto tão lindo como esse"; "ficaríamos imensamente agradecidos se o senhor pudesse nos prestar um grande favor, o que consideramos até uma caridade" (...) "enviar para nós a sua antologia de contos e mais alguns livros de contos, crônicas e romances" (...). Não quero frisar os elogios dele ao meu conto, mas a carência de nosso povo. O conto por ele referido está na edição n.º 26 de Literatura. Provavelmente o amigo de Cambuci lhe deu o exemplar, talvez adquirido num sebo. Isto é, nossa revista está no mundo.
Nilto Maciel
Escrito por Nilto Maciel às 13h04
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A FÚRIA DA PAIXÃO
Nilto Maciel
Muita gente faz do sábado de Aleluia uma grande festa pública. E se diverte à tripa forra. Espécie de carnaval de um dia.
Essa gente festeira sai às ruas com o único fito de malhar e queimar bonecos de pano, papel e palha, chamados Judas.
Tal festa é conhecida desde alguns séculos por "malhação do Judas". Dizem ter se originado na Península Ibérica. Onde também se originou a Santa Inquisição.
Enquanto no interior das igrejas é celebrada a ressurreição de Cristo, nas ruas acontece a tal festa profana. Dentro das igrejas estão padres e leigos. Nas ruas brincam apenas os leigos.
Segundo a Bíblia, Judas Iscariotes, um dos doze apóstolos, traiu Jesus, recebendo por seu ato o pagamento de trinta dinheiros. E em seguida suicidou-se.
A tradição cristã fez de Judas um criminoso repelente. E os cristãos lhe dedicam ódio mortal. Daí a malhação e queimação de bonecos que o representam.
Trata-se, na verdade, de uma encenação, de um teatro. Não há texto, apenas ação. Os atores anônimos espancam, insultam e, finalmente, queimam o ator principal – o boneco. Armados de paus, os cristãos, furiosos, investem contra Judas. E, num átimo, o estraçalham.
A tragédia se consuma no enforcamento e na queimação do boneco. A turba delira, ri, gargalha, satisfeita, vingada.
A cena lembra a Idade Média, a cremação de bruxas, infiéis, vítimas da sanha de Torquemada.
Pode lembrar ainda tempos mais remotos: os primeiros homens enfrentando feras. Armados de paus e archotes na grande noite da Terra. Macacos em evolução. Há, porém, pequenina diferença entre uns e outros. Os primatas enfrentavam feras, enquanto os malhadores de Judas encaram bonecos.
Essas festas populares viram notícia nos meios de comunicação de massa. Em tal cidade o festejo começou de madrugada. No bairro fulano de tal a brincadeira terminou na polícia.
São também atração turística. Europeus bem comportados, sadios e endinheirados desembarcam, aos grupos, e, armados de curiosidade e filmadoras, registram nossa barbárie tropical. Assim também devia ser há 2000 anos. Gente vinda dos cafundós da Gália – belgas, aquitanos, celtas – chegava à sede do Império Romano para aplaudir a morte de gladiadores no Coliseu. Ou o suplício e o martírio de cristãos nas garras dos leões. E Marco Túlio Cícero, indignado, clamava: "O dii immortales! Ubinam gentium sumus? In qua urbe vivimus?" Sua indignação, no entanto, tinha outra origem – Catilina. Dizemos, então: Ó deuses imortais, em que terra estamos, em que mundo vivemos? E quem são os alegres foliões de hoje? Certamente um ou dois deles leram a Bíblia. E nenhum outro livro. Conhecem a História de Judas pela boca dos padres. Acreditam, porém, vingar a morte de Cristo, ao malharem insensíveis bonecos.
Para eles, judeu significa inimigo do deus cristão. Não têm a mínima noção da História. O Império Romano? Sim, houve um "rei" chamado Nero que incendiou Roma. Essa e outras histórias de heróis e monstros Hollywood contou e recontou.
Esses vândalos de hoje terão, no mínimo, o reino dos céus. E serão capazes de queimar livros, de destruir cidades e de louvar a morte de Lorca, de Giordano Bruno, de Guevara.
Escrito por Nilto Maciel às 13h03
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FOSSAS
Nilto Maciel
A moça mal me conhecia, apesar de sermos vizinhos há mais de um ano. Tocou a campainha e, mal abri a porta, pôs-se a contar a tragédia: sua cozinheira cometera um crime horrível. A princípio não lhe dei ouvidos. Dei-lhe todos os olhos. Talvez não estivesse girando bem. Bater-me à porta àquela hora da manhã, para contar-me um sonho ruim, sem sequer me conhecer, só estando biruta!
Aos poucos, porém, fui deixando de lado essa mania de ver neuroses em tudo e em todos. Ora – e eu sem perceber –, a moça queria apenas me conhecer, fazer-se amiga. Ofereci-lhe café. Ficasse à vontade, entrasse. Sim, aquilo bem podia dar em namoro. Pela primeira vez, desde que vim arribado da seca, retirante letrado e bem apessoado, alguém me procurava para um bate-papo. E logo aquela moça bonita. Não lembro os detalhes, mas tenho certeza de que meus olhos dançavam e meus lábios sentiam cócegas. E ela falando pelos cotovelos, contando a história da doméstica malvada, assassina. Levei os óculos à cara e só então percebi o choro da pobrezinha. E a enorme desgraça ocorrida em sua casa. Cego que sou e só sei ver neuroses e sexo! Transformei-me às pressas, como quem muda de máscara, e, cheio de remorsos, bradei interjeições e impropérios. Uma desgraça, uma desgraça! Como a querer consolar a pobre patroa e a punir a vil doméstica.
Quando ela se foi, sem socorros, fechei a porta sem ânimo e caí no sofá, a remoer uma angústia de gente besta, ainda não acostumada às pequeninas desgraças cotidianas. A doméstica desalmada que lançara ao vaso sanitário o fruto de seu pecado, como se fizesse apenas uma necessidade fisiológica. O bichinho que caíra, vermelho, na brancura infecta, contorcendo-se de morte, a clamar o primeiro e o último apelo à vida. E lá descera pras profundas das fossas, a morrer de catinga.
Ia eu refazendo mentalmente a tragédia, quando me veio a idéia de escrever um continho: a curta vida – do ventre à latrina – a curta vida de um feto.
Porém já agora, que trabalhei o dia todo, dou por esquecidos a angústia de minha bela vizinha, meus ímpetos adúlteros, o prazer de sentir-me cercado de gente conversadeira, o pequenino ódio à criminosa, e, ainda, a fúria literária. Ficou essa ruminação de jumento cansado, duas cangalhas de rapaduras nos lombos feridos, a caminho da feira. Mas o que rumino não é o feto não tornado ser. Remôo cá dentro da cachola é aquela quase-menina fugida dos interiores da vida e que veio bater nesta Brasília ainda tão criança e já tão cheia destas absurdezas. Aquela moçota que deixou os pais a plantar batata nos cafundós-de-judas e veio ser doméstica na cidade grande. Aquela cabocla que fugiu para o futuro do fogão a gás e nunca mais carregar lenha às costas. A mestiça que, de tanto lavar prato, esqueceu os planos antigos de um dia ser gente também. A caipira que veio aprender a namorar motoristas e sobretudo o prazer macabro de engendrar um ser para depois sufocá-lo de vergonha numa sentina qualquer. A brasileirinha que deixou o sertão distante, cheia de enganos, para vir se encher de desilusões em Brasília. E agora sentir-se tão afundada na fossa (como dizem na gíria), deprimida, culpada, criminosa, ao pensar que poderia amamentar um filho, em vez de vê-lo morto de catinga numa fossa alheia.
Escrito por Nilto Maciel às 13h35
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JALONS
O nº 81 (terceiro trimestre de 2005) da revista francesa Jalons traz do brasileiro Enéas Athanázio "Comment naît le poème?" e poemas de Gonçalves Dias, Maria Aparecida Calandra, Paulo Hecher Filho, Arlindo Nóbrega, Maria Stela Marques Ochiucci e Ethel Pacheco, além de diversas notícias de escritores brasileiros, da revista Literatura e do jornal Novo Liberal. A direção é de Christiane Mestas e Jena-Paul Mestas. Endereço: 6 rue du Massif Central, 03200 Vichy, France.
Escrito por Nilto Maciel às 13h33
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