Nilto Maciel e Literatura – niltomaciel@uol.com.br


13/10/2005


LIVROS DO BRASIL (D e E)

Dionísio MachadoSesmaria do Córrego Fundo, romance (Secretaria Municipal de Cultura, Goiânia, 1991). Livro premiado pela Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos, 1990. Numa das orelhas Brasigóis Felício lembra: "Não sou nenhum profeta, mas orgulho-me de ter sido dos primeiros a vaticinar e atestar o talento de escritor de Dionísio Machado." Outra opinião é de Valdivino Braz: "Primeiro, é notável o esforço do escritor Dionísio Machado, no sentido de superar-se de livro para livro, aprimorando sua literatura, tanto em termos formais quanto em densidade de seus enfoques".

Dirce LuaUma Vida em Frenesi, poemas com ilustrações (SP, 1992). Em 1993 editou um segundo volume, sob o mesmo título. Eis alguns de seus versos: "Tenho tanto medo do que escrevo..." — "Tenho tanta saudade! (...) Saudade da alegria que eu tinha..." — "Quero das veias de teu corpo o gim (...) Quero do fundo do teu peito o fel..."

Emil de Castro – Sobre Aprendiz do Nada (Cátedra, RJ, 1992): Emil de Castro é um dos poetas mais fecundos e fatalizados da nova safra poética do Estado do Rio de Janeiro, segundo Walmir Ayala. "A poesia de Emil de Castro rescende a vida, e belamente, como compete a um poeta sem dúvida romântico", diz ainda Ayala. As abas do pequeno livro (30 páginas) trazem opiniões de grandes nomes de nossa literatura, como Alphonsus de Guimarães Filho.

Enéas Athanázio São Roque da Ventania (Editora Minarete, 1993). Um dos mais importantes escritores catarinenses, Athanázio já publicou mais de duas dezenas de bons livros. São Roque da Ventania confirma sua importância. Regionalista, Enéas se vale do linguajar do interior catarinense sem esquecer a correção da frase. E nos dá mais uma novela com sabor de Sul e linguagem correta.

Eno Teodoro WankeFábulas (Edições Plaquette, RJ, 1993). Poeta, pesquisador, biógrafo, ensaísta literário, Eno fez parte do movimento literário em torno da trova — o trovismo — do qual é o historiador e um dos principais teóricos. Sua produção literária e sua biografia foram analisados no livro Eno Teodoro Wanke - Sua vida e sua obra, de Therezinha Radetic.

Escrito por Nilto Maciel às 15h01
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A FITA

Nilto Maciel

(modinha setecentista)

No fundo da oca surge

que salte da fauna fóssil

embirados por cordas nós

puxados que nem tatus.

Escrito por Nilto Maciel às 14h59
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12/10/2005


LIVROS DO BRASIL (A, B e C)

Álvaro PachecoAnderson Braga Horta escreveu sobre Geometria dos Ventos: "Poeta da contingência, a que, todavia, dialeticamente, a transcendência (implícita) não é de todo alheia; de linguagem sintaticamente clara, incisiva, mas ideacionalmente oblíqua, às vezes hermética; com uma visão crítica do mundo, e não dado a efusões líricas eis alguns conceitos que nos acodem à medida que vamos lendo o último livro de Álvaro Pacheco. (...) O novo livro, A Geometria dos Ventos, é editado pela Record (Rio de Janeiro, 1992) e contém estudo da Profª. Teresa Velho."

Anatole Ramos A Surpresa da Festa, contos de Anatole Ramos (Cerne, Goiânia, 1990). Livro premiado pela Bolsa de Publicações José Décio Filho, 1989. A Comissão Julgadora concluiu: "Abordando aspectos do cotidiano, o livro destaca-se pala simplicidade de sua narrativa e por construções bonitas e de fácil assimilação, prendendo a atenção do leitor através do suspense e da expectativa criada a partir de ganchos interessantes que garantem o bom desenvolvimento dos contos."

Aracyldo Marques – Extermínio, romance (Cátedra, RJ, 1986). O editor Moacir C. Lopes afirma: "Ler este romance é como se estivéssemos vendo o Brasil nascendo como nação, as guerras, o extermínio, a chegada das missões religiosas, de Rodrigues de Caldas e Domingos Jorge Velho, que acabaram por incendiar as aldeias e subjugar os índios, e dos escravos vindos dos navios negreiros, o que daria início à verdadeira miscigenação da futura raça brasileira."

Brasigóis Felício – Resenha de Anderson Braga Horta refere-se ao livro Árias do Silêncio: "De expressão forte e conteúdo intensamente humano, como sempre, a poesia de Brasigóis Felício em seu novo livro, Árias do Silêncio (Goiânia, 1992). A par das epígrafes e das citações nominais, insere ele em seus versos alusões e transcrições de poetas especialmente admirados, cujos nomes cala, mas que o amador de poemas identifica de pronto como Drummond, Bandeira, Pessoa."

Cleonice Rainho Verdevida (José Olympio Editora, 1993). O 18º livro da poetisa de Juiz de Fora (aliás, de Angustura, município de Além Paraíba, Minas Gerais, como ela gosta que digam) devia ter sido publicado durante a realização da Conferência Rio-92, a chamada Eco-92. Não importa se não o foi. Poesia não é acontecimento, notícia. Poesia está além das conferências. Antonio Carlos Villaça assim saúda Cleonice: "Eis Cleonice na sua intimidade e na sua universalidade, senhora de muitos saberes e muita graça. Ei-la generosa e simples, lúdica, fiel a si mesma. Ecológica." Sim, essa é a palavra certa para definir Cleonice Rainho no novo livro. Sem modismo, é claro.

Clóvis Moura Flauta de Argila, poemas (Fundação Cultural Monsenhor Chaves, Teresina, 1992). São palavras de M. Paulo Nunes, na abertura do volume: "No longo e elegíaco poema ‘O rio Parnaíba revisitado’, dedicado à memória de Da Costa e Silva, o poeta se revela, não somente elegíaco, mas profético, em relação ao destino do grande rio, fonte vital para a sobrevivência do nosso Estado e ameaçado de também tornar-se apenas lembrança."

Escrito por Nilto Maciel às 14h25
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11/10/2005


A ODISSÉIA DE CARLOS MAGO

Nilto Maciel

Havia um homem. Depois se fez capitão, cavalariano. Chamavam-no, quase sempre, Carlos Mago. O que o irritava profundamente. Talvez por entender magro, magricela, esquelético.

Ora, havia outros Carlos na cidade. Dezenas e dezenas. De importância, no entanto, somente dois. Ele, Carlos Mago, e Carlos Gordo. Ambos galistas, pais-de-família respeitáveis, cidadãos de bem, etc. Diferençava-os, apenas, o espaço que ocupavam no Universo. Um, magro como um pau de vassoura; outro, gordo como um porco. A razão de serem assim parecia de fácil entendimento. O primeiro, eterno perdedor de apostas fraudulentas presididas por outro Carlos, deixava de se alimentar para cuidar de seus doze galos. Tratamento à base de aveia, girassol, lingofex intramuscular, pantetonato de cálcio, nicotinamida, vitamina K, ferro, fósforo e iodo.

(Corrija-se informação anterior: eram três e não dois os Carlos importantes da cidade. E o terceiro, com certeza, encabeçava a lista. Primeiro por ser chefe político, cacique, raposa velha. E também por ser dono do único rinhadeiro da região.)

Carlos Gordo, o sempre ganhador das apostas, amigo, parente e correligionário do terceiro Carlos, seria gordo por isso mesmo.

A explicação do Mago de Carlos parece plausível. Além do mais, mago, no linguajar nordestino, é corruptela de magro. De outra forma, mago seria o Gordo.

Havia também um animal. O quadrúpede, o condutor do capitão, o cavalo, "um alazão famoso, bralhador e galopante, tão enorme quanto um cavalo de imperador, rei ou guerreiro". Chamavam-no Carlos Galo.

(Corrija-se informação anterior: eram quatro e não três os Carlos importantes da cidade. E o quarto, com certeza, encabeçava a lista, como encabeça esta história.)

Montado em Carlos Galo, o cavaleiro desaparecia no meio das crinas esvoaçantes. Mais parecia um simples e mínimo adorno humano. Na estrada, somente se via o cavalo. Os mendigos cegos, no entanto, enxergavam um cavalo e seu cavaleiro. Os demais habitadores daquelas bandas só viam um cavalo fantasma, a atravessar nu os caminhos e as veredas, relinchando e bralhando. Às vezes cantando como um galo na madrugada. Não se sabe, daí, quem o apelidou de Galo, se o dono, se o povo.

Não, um cavalo não podia cantar – negavam os mais incrédulos. O canto fluía da garganta de Carlos Mago. Toadas de entristecer as pedras, a caminho ou descaminho das rinhas. Perdedor sempre, nunca chorava – cantava. Cantigas chorosas.

A lenda falava ainda de um fenômeno horroroso: a simbiose dos dois seres, enquanto cavaleiro e cavalo. Não seriam dois, mas um só bicho nos ermos: metade homem, metade cavalo. Sempre a cantar. Galo quadrúpede.

Estudiosos do romance de cavalaria vêem em Carlos Magno a origem do nome do cavalo de Carlos Mago. Brazilianists vislumbram Charles de Gaulle. Humoristas brasileiros, porém, vêem apenas uma estreita relação entre o homem Carlos Mago e o cavalo Carlos Galo. Um seria Ma(g)no; outro, galo, gaulês. Ambos Carlos. No fundo, seriam um só ente: cavalo-cavaleiro.

Havia ainda doze galos. Todos semelhantes entre si em idade, tamanho, peso, penas, armadura e nome. Todos Carlos.

(Corrija-se informação anterior: eram dezesseis e não apenas quatro os Carlos importantes da cidade.)

Iam, um dia, em marcha, quatorze Carlos. Na seguinte ordem: o cavalo, sadio, cascos de ferro, esporões, chifres artificiais de touro e dentes afiados à lima. Montado neste, o homem, tísico, tossindo permanentemente, cantando, peixeira à cintura, pau de vassoura à mão direita, esporas, pracatas de rabicho, banguela e dois chifres invisíveis sob o chapéu de couro à Lampião. Logo atrás, os galos, em fila indiana, esporões naturais e de metal, bicos também naturais e de prata, cristas eriçadas, pescoços de girafa, rijos como cabos de aço, asas espalhadas como de aviões, coxas musculosas como de atletas humanos. Os doze carregavam consigo a glória e a fama de terem fendido o ventre de outros doze galos. Assim mesmo, Carlos Mago perdeu todas as apostas. Havia apostado nos adversários.

A marcha cavaleirosa capitaneada pelo galista Carlos Mago se denominou Coluna Carlos. Partiu do Sítio Dom Chicote, Município de Baturité, quando ficou proibida a realização de rinhas em todo o país.

Alguns anos atrás, Carlos Mago vivia de fabricar vassouras de palha para a prefeitura da cidade. E durante certo tempo percorreu estradas, lugarejos, vilas e ruas, em luta contínua contra a sujeira. Vassoura à mão, comandava um exército de garis. Enxotava os bichos que, soltos, sujavam as ruas e atormentavam as vistas castas de damas e donzelas.

E se fez janista noite e dia. Finda a campanha eleitoral, Carlos largou para sempre a vassoura. E abandonou uma profissão de quase meio século, para se dedicar a galos de briga. Em compensação, livrou-se de um estoque de três mil vassouras e um jumento de estimação. Em troca, recebeu um cavalo velho e doze pintos órfãos.

A Coluna Carlos atravessou a principal rua da cidade numa tarde quente. A molecada vaiou. Os bêbados, no entanto, gritaram e saudaram a marcha. Logo, moleques e bêbados, unidos, davam vivas ao troço. Incentivada pelas manifestações públicas, a comitiva seguiu, airosa, sua marcha guerreira.

A caminho da capital, a Coluna foi interceptada e interpelada por um grupo de pessoas. Fizeram perguntas de toda ordem. Apontaram máquinas para os galos, o cavalo e Carlos Mago. Aborrecido, este gracejou: ia às Índias, à China, à Pérsia, à Indonésia e à Grécia, levar a formosura e a valentia dos galos do Ceará.

À noite, já em plena capital, Carlos Mago se viu nos vídeos da televisão. O locutor falava de retirantes nordestinos em demanda do Oriente, fugidos da seca.

Alta noite, os retirantes tomaram o rumo da estrada que levava ao Planalto Central. A Coluna Carlos ia derrubar o inimigo das rinhas.

***

Escrito por Nilto Maciel às 13h56
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LIVROS DO BRASIL

Nilto Maciel

A rica indústria do livro no Brasil atua em três principais frentes: a do livro didático, escolar; a do livro das grandes, médias e pequenas editoras; e a do livro dito "do autor" ou de micro-editora de autor. O primeiro segmento é comercializado por indicação das escolas, dos professores. O segundo, nas livrarias, supermercados, bancas de jornal etc. O terceiro não consegue comercialização, a não ser na noite de autógrafos, para alguns. Esses livros, geralmente de tiragem reduzida (200 a 1000 exemplares), são oferecidos, gratuitamente, a amigos, parentes, outros escritores, e postos à venda em algumas livrarias. Felizmente, muitos deles terminam nos sebos ou livrarias especializadas em livros esgotados e usados e, conseqüentemente, nas mãos dos melhores leitores e pesquisadores. Pois foi exatamente para esse livro que se criou a revista Literatura. Para divulgar esse tipo de livro. Não necessariamente apenas ele, mas, sobretudo, ele.

De 1992 a 2004 chegaram ao endereço da Revista centenas ou milhares de livros do autor ou de micro-editoras, além de publicações universitárias e de pequenas e médias editoras do Brasil. Todos eles mereceram uma referência, uma resenha, por menor que fosse, quando não artigos e até ensaios. Outros milhares de livros foram publicados nesse período, mas infelizmente seus autores ou editores não tiveram como enviá-los à redação de Literatura. E, se o tivessem feito, certamente não conseguiríamos espaço para resenhar todos eles.

Para homenagear o escritor brasileiro que edita os próprios livros ou os tem publicados por pequenas editoras (e neste rol entram as universitárias), diremos um pouco de cada uma dessas obras enviadas à revista Literatura. E não somente para isto, mas também para esboçar um arrolamento de parte significativa da Literatura Brasileira do final do século XX e início do XXI que possa servir de base a pesquisadores, estudiosos, professores, estudantes e quem mais se interessar pelo assunto.

Para facilitar a pesquisa, usaremos o método dos dicionários. Os autores virão em ordem alfabética. Não será exposta a bibliografia de cada um; serão citados somente os livros resenhados na Revista, pelo editor ou em artigos assinados (nestes serão mencionados o título do artigo e o número da edição da Revista, assim, no exemplo: ("A arte de fulano", n.º 6).

Adrino AragãoTigre no Espelho, contos (Da Casa Anta Editora, Brasília, 1993). No posfácio Emanuel Medeiros Vieira diz, a certa altura, que o livro de Adrino "é um hino de compreensão a todos os criadores, vivos ou mortos, que deixaram as glórias e as pompas do mundo, e optaram pelo exercício cotidiano da palavra, uma necessidade inapelável, não só intelectual, mas até epidérmica". E conclui: "Adrino vai tentando descobrir os caminhos do labirinto, buscando desvelar os segredos das teias da vida e da literatura e problematizando, com dor e paixões (no sentido dostoievskiano do tempo), o próprio fazer literário.

Escrito por Nilto Maciel às 13h53
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10/10/2005


JORNAL DE POESIA, JORNAL DO CONTO, BESTIÁRIO, CRONÓPIOS

Muitos são os sites dedicados à literatura, em português. Alguns pessoais, outros de equipe. Todos muito sérios, competentes, mantidos com responsabilidade. Um deles é o Jornal de Poesia - http://www.secrel.com.br/jpoesia -, dirigido pelo poeta Soares Feitosa. Considerado o maior acervo de poesia em língua portuguesa. Incluído nele está o Jornal do Conto, que vem crescendo aos poucos. Surgida mais recentemente, a revista Bestiário - http://www.bestiario.com.br/ - é também voltada para o conto, porém aceita artigos, resenhas e ensaios sobre livros de contos e contistas. Além disso, publica contos de todo o mundo, em português. Uma das mais novas revistas literárias eletrônicas é Cronópios - http://www.cronopios.com.br/ -, voltada para as mais variadas áreas da literatura. Para os que gostam de ler e pesquisar literatura na Internet, estes sites são um prato cheio.

Escrito por Nilto Maciel às 14h48
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O MATADOR E O MORADOR

Nilto Maciel

 

(cantiga erudita antiga)

No miolo do buraco

fechava-se o ponto de chegada

atado às mãos e aos pés

do atirador no mato fechado.

 

Escrito por Nilto Maciel às 14h36
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CHARLES KIEFER E O ROMANCE EM ESPIRAL

Nilto Maciel

A história contida em O Escorpião da Sexta-Feira (Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, RS, 2002), de Charles Kiefer, pode ser lida como o conflito do personagem-narrador com ele mesmo, embora os choques dele com as personagens se apresentem ao leitor do começo ao fim do livro. Ou a partir da "apresentação" do drama por um personagem menor, nas três primeiras páginas. No decorrer da narrativa este primeiro narrador, Ricardo, aparecerá poucas vezes. A partir da quarta página o foco da narração será sempre do protagonista, Antônio, que ao longo da trama se descreve, se desnuda, se pinta, diz quem é, o que praticou, leu, viveu. Nessa descrição, nesse desnudamento, nessa pintura, nessa narração autobiográfica, nesse relato de vida o personagem vai se mostrando quão perdido está, quão deformado é, como a se analisar, como se fosse o analista de si mesmo. Na luta que trava consigo, ora se sente agredido, ora agressor, ora lúcifer, ora anjo bom. Ao final surge a pergunta: Como um ex-seminarista, tão devoto dos santos católicos, tão lido nos filósofos gregos, nos poetas e nos doutores da Igreja, em São Tomás, tão seduzido por música erudita, como pôde aquele jovem culto se transformar num assassino cruel? Ele mesmo não se defende, como todo maníaco.

Porto Alegre é o espaço maior onde se desenvolve o romance. As principais ações, no entanto, se dão no restrito espaço do apartamento de Antônio, onde se consumam os crimes praticados por ele. A capital gaúcha é retratada em várias ocasiões, como na caminhada feita pelo narrador e Laila (Maura), ao se retirarem da boate onde se conheceram. Na segunda parte também se dão algumas descrições da cidade, com nomeações de logradouros. Isto, ainda assim, não caracteriza o livro como gaúcho. A linguagem nada tem de regional, a não ser o tratamento na segunda pessoa, muito característica do Sul do Brasil. O que se dá também em outras regiões do país.

Além dos personagens (humanos), a obra de Kiefer conta com outros de maior importância: os escorpiões. Ou, mais precisamente, Genghis Khan, nomeado pela primeira vez na página 17. Ao leitor, entretanto, não é dada, nesse momento, a idéia de escorpião, embora toda a trama, a partir do título, deva conduzir a esse raciocínio. Não poderia ser um cão de guarda? Porém oito páginas adiante se faz o esclarecimento necessário: "Eu penso na satisfação inigualável de Genghis Khan, na sua emoção, ao ouvir, ainda longe, a respiração assustada dos insetos".Que se completa na página 57: "Hoje, quando chamo por Genghis Khan, meu escorpião preferido abandona o esconderijo nas pedras do aquário e retesa a causa, em saudação".

Estes animais não são apenas essenciais à trama, mas, sobretudo, a metáfora principal do drama. Com eles o narrador dá início à história, numa descrição minuciosa, científica até: "Os escorpiões são calmos, metódicos e pragmáticos".A verdadeira significação do bicho no romance surge na página 25, quando Maura se assusta, percebe o perigo à sua volta, tenta escapulir do apartamento: "Tu deves ser maluco".

A linguagem do narrador é culta, embora sem preciosismos, sem jogos verbais. Assim, ao lado da narração propriamente dita, dos diálogos (às vezes em discurso indireto livre), das breves descrições, ele se vale de observações de fundo sociológico, psicológico ou filosófico. Como quando analisa o comportamento da mulher (pág. 14): "Quando uma rameira vê um homem deprimido num antro de pecado, contemplando o nada ou o fundo de um copo de uísque, supõe que ele ali esteja pela primeira vez, que foi traído pela esposa, que veio se vingar. As variações não são muitas".Ou como quando (pág. 28) faz uma longa digressão filosófica sobre o tempo.

Muitas vezes o diálogo é transmitido como se em tempo real, no presente, e sem o uso do tradicional travessão, o que representa, se não uma novidade, uma ruptura com a forma tradicional de apresentar falas. Apesar disso, o romancista ainda utiliza a "explicação desnecessária", como aqui: "Tu colecionas perfumes? A rameira grita, do banheiro" (pág. 23). Ou das aspas nas falas, seguidas das tradicionais explicações "ela perguntou", "ela disse", "respondi", como se vê a partir da página 37. Mais adiante se vale dos famosos travessões.

As descrições no livro ocorrem poucas vezes e quase sempre em complementação a uma narração de tempo passado ou de observação (solilóquio): "A adolescente, é ainda uma adolescente, tem os mesmos grandes e melancólicos olhos verdes da primeira mulher que matei, e a mesma vaidade no nariz empinado, a mesma inquietação nervosa nas mãos pequenas e magras" (págs. 14/15). A descrição do ambiente da boate (pág. 29) é de observador atento, minucioso, sem ser eloqüente, exuberante.

O Escorpião da Sexta-Feira é narrado primeiramente na primeira pessoa, por personagem secundário, Ricardo, em apenas três páginas. O restante, pelo protagonista, que inicialmente parece narrar uma história, que seria a sua história misturada às de algumas personagens femininas: moças de vida noturna ou prostitutas. Na verdade, a sua história (da infância em Pau-d’Arco até o presente em Porto Alegre) não seria "contável" sem a participação de Luísa, num tempo, e de Laila, posteriormente. Aos poucos, ou aqui e ali, o narrador vai se apresentando ao leitor, em frases capitais, inseridas no decorrer da narração ou das descrições psicológicas ou ambientais. Primeiramente no início da narrativa, quando descreve o escorpião e abruptamente anuncia: "Eu também ataco as mulheres sempre do mesmo modo".Mais adiante (pág. 22), outra frase essencial: "O corpo é sempre um problema. Não gosto de esquartejar".

A narração ora se dá num tempo histórico presente, ora passado. Na primeira parte (do protagonista) o tempo pretérito é quase imperceptível, a não ser em raras digressões do narrador: "Sinto, outra vez, uma espécie de piedade, de solidariedade. De Luísa, de Maura, das outras mulheres, enterradas nas galerias subterrâneas da Cúria, de mim mesmo". E logo, no mesmo parágrafo, volta ao presente, em solilóquio: "Passo a mão na coxa da mulher, acaricio-lhe um dos seios". Na segunda parte o protagonista utiliza o flashback para contar a parte mais importante de sua vida, o tempo em que conheceu Luísa e o levou ao fundo do abismo. Ou a encontrar o seu destino. E logo nos primeiros "movimentos" a trama diabólica se instaura. Ao se despedir da moça, no primeiro encontro, se deixa embevecido a olhar para ela: "Algo em seu modo de andar, talvez o movimento dos braços, ou da cabeça, ou as pernas longas e finas, lembraram-me um inseto". Neste exato momento se dá a descoberta da verdadeira relação dele com ela: ele seria o escorpião; ela, o inseto a ser devorado. A terceira parte seria a continuação da primeira. Luísa já está morta, é passado. Maura se torna co-protagonista da história. O romance chega ao fim. É a hora do desenlace da trama, da morte de Maura. A última frase repete a primeira, faz-se o círculo da vida e da morte, do romance em espiral: "Os escorpiões são calmos, metódicos e pragmáticos".O narrador está calmo, como se narrasse uma história de amor, um drama açucarado. No entanto, o "aríete", o escorpião, já se esgueirara sob a calcinha da moça e desaparecera. Desfecho macabro, porém imaginado pelo leitor.

Escrito por Nilto Maciel às 14h34
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CAVALOS DE TRÓIA

Nilto Maciel

No telhado do Caffe Portuguez pombos arrulhavam. Um casal se beliscava sobre um dos jacarés. O alto-falante cantarolava uma valsa. "Eu quisera, por vingança, ver teus olhos de criança na tristeza de outros olhos". Súbito o locutor soqueou o microfone e, galhardamente, anunciou: "Atenção, atenção! Nossa cidade está sendo invadida por móveis metálicos..." E se engasgou, enquanto os pombinhos, assustados, debandavam.

Mulheres e criancinhas, apavoradas, olhos arregalados, debruçaram-se nas janelas. Meninos que jogavam bola-de-meia na rua, de um pulo se esconderam atrás das portas. Burros se aterraram e, com suas carroças e seus carroceiros, subiram as calçadas. No atropelo, uma galinha perdeu a vida.

Apesar de tudo, o cortejo seguia seu caminho, invadia a cidade, garboso, solene, sorridente, como cavalos de Tróia vitoriosos. No primeiro automóvel apenas um homem. Nos outros dois, rapazes de variadas feições, nunca dantes vistos por aquelas redondezas.

***

Aos poucos, o estupor geral desapareceu. As carroças voltaram a ranger nas ruas tortas, conduzidas pelos mesmos velhos burros. A meninada tornou a correr atrás de suas bolas. O alto-falante irradiou novamente valsas de amor. Os pombos regressaram ao telhado do Caffe Portuguez, com seus arrulhos intermináveis. De novidade, só missas em latim e sermões gritados contra o progresso e a máquina.

Os cafés, porém, se encheram naqueles dias. Os homens beberam e jogaram mais, e não pararam de falar na riqueza e no luxo do filho de Daniel Montefusco. Nem os novos filmes de Buffalo Bill despertavam interesse. Os peles-vermelhas morressem sós. O operador fosse matar as pulgas do Cine Brazil.

Nas calçadas, à noite, enquanto a lua brincava de esconde-esconde com nuvens e estrelas, entoada a Ave-Maria, transmitida a Voz do Brasil, as mulheres contavam histórias sem fim de minas e minas de ouro, fortins holandeses recém-descobertos, fotografias escandalosas, onde aparecia, entre o mar e a terra, um rapaz muito galante, cercado de mulheres extraordinariamente exóticas e impuras. Há muito a filha do boticário se perdera no Beco da Onça com o respeitável Josué Montezuma, armazenista de secos e molhados, devoto de Santa Luzia, que o livrara da cegueira quando menino, casado com a digníssima Nazaré da Conceição, cuja mocidade se fora nos braços do hoje invejável Daniel Montefusco...

A lua brincava de esconde-esconde com nuvens e estrelas...

***

No decorrer dos dias e das noites, a cidade se encheu de outras novidades. Uma bodega cerrou suas portas, após seu dono se enforcar. Um homem espetou sua esposa. Algumas mocinhas tornaram-se definitivamente tristes. Um rapaz muito galante fugiu, deixando diante da casa de Daniel Montefusco dois cadilacs, onde meninos brincam de esconde-esconde.

Escrito por Nilto Maciel às 14h32
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09/10/2005


LITERATURA SEM FRONTEIRAS

Este blog comporta poemas, contos e artigos sobre literatura. Entretanto, a sua capacidade é limitada. Em razão disso, criei outro blog (http://literaturasemfronteiras.blogspot.com . Nele também publico poemas, contos e artigos, sem repetir nenhum. Os leitores – que são milhares – terão, pouco a pouco, dia a dia, conhecimento de todos os meus contos e poemas, bem como dos artigos que escrevi ao longo de mais de vinte anos. Nos artigos os leitores conhecerão alguns escritores brasileiros e seu livros. A maioria dessas obras foi publicada por pequenas editoras e, por isso mesmo, esses livros não são encontrados em livrarias. Esse foi um dos motivos que me levaram a criar a revista "Literatura", cujo n. 29 saiu em agosto de 2005 e já se encontra esgotado. Para contato: niltomaciel@uol.com.br ou niltomacielmaciel@bol.com.br

Escrito por Nilto Maciel às 14h39
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