SOBRE JUAREZ BARROSO
Nilto Maciel
A história da Doutora Isa, contada por um matuto de nome Tarciso a uns doutores, como os contos primitivos de proezas de caçada ou de pescaria, num linguajar bem nordestino, deixa o leitor em estado de constante emoção e expectativa. E não é o linguajar matuto que vai afear o livro como peça literária. Muito pelo contrário: se narrado em discurso indireto, em linguagem castiça, perderia a força atrativa que carrega, embora Graciliano Ramos tenha sabido aprimorar a linguagem de seus personagens-narradores iletrados ou semiletrados, como Paulo Honório e João Valério.
Na obra ficcional de Juarez Barroso o que ressalta é o homem, como diz João Antonio, até na escolha dos títulos, salvo alguns. O homem em todas as latitudes: o fazendeiro, o lavrador sem terra, o operário, a prostituta, a adúltera, a solteirona. Porque o seu universo ficcional é o mesmo que está vivo ou morrendo por via do processo “civilizatório”.
Doutora Isa é o marco de um processo criativo, marco porque encerrou a carreira do autor, embora o livro tenha sido reconstruído postumamente por Mário Pontes. Também é um marco porque frisa a obra iniciada em Mundinha Panchico. Porque, se a morte não nos tivesse roubado Juarez Barroso, a vida dificilmente lhe daria condições de elaborar obras tão fabulosas como as que deixou.
(Extraído do artigo "O Universo Fabuloso de Juarez Barroso")
Escrito por Nilto Maciel às 13h46
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FRAGMA, DE CÂNDIDO ROLIM
Fragma é de/composto de 81 páginas de sínteses lingüísticas não redutíveis a alguma aproveitável construção poetizável ou filosófica, ressalvado algum efeito estético informado pela desordem ou a condição fragmentária do texto.
Os “poliedros de idéias” constantes de Fragma, tal como aponta o poeta e crítico Ronald Augusto na apresentação, longe da natureza sentenciosa dos aforismos e talvez devido à sua anárquica predicação, não conduzem a um ponto de chegada ou ao conforto ideológico-verbal de um enunciado. É, por isso mesmo, uma crítica álacre aos sisudos artefatos da razão sem fissura.
Fragma é filosofia barata, no sentido de in/disciplina escolástica e vôo anti-paradigmático, e também por não pretender pôr um tijolo a mais na construção dos conceitos.
Fragma mexe com quase tudo: apontes cotidianos sobre o perigo de sair à rua a bordo de uma só idéia ou um só desejo. Nessa obra o autor capta o pensamento no instante larvar, antes de abrir-se para a apropriação esgotante dos sistemas filosóficos-conceituais. Literatura do fragmento? Pode ser. É possível que Fragma reflita a “condição fragmentária do homem contemporâneo”, mas talvez só enquanto ensaio, esboço, transcurso crítico, jamais como plano de intenção ou de/finição de rito, ritmo, credo, dentro ou fora da linguagem.
Sobre o autor: “Cândido Rolim embaralha prosa, poesia e filosofia inventando um verdadeiro magma de linguagem que se esgalha em sintagmas, fraseados atordoantes e atordoados por filosofemas reificados, nexos e anexos fonosemânticos: objeto, desejo, ato, noção. Na verdade, Fragma é anátema lançado contra a figura do aforismo que se fecha em arabesco argumentativo, contar o enunciado lapidar ou a anedota sofista oscilando entre irônica e oracular. Cândido Rolim ajusta seu Fragma a contrapelo do dogma e do sentencioso; conforma-o contrafragmento instado a obsedar e corroer o fragmentário enquanto norma da mentalidade contemporânea.”
(Ronald Augusto, poeta, músico e crítico de literatura residente em Porto Alegre, autor de Puya, Cânhamo, Disco e Confissões Aplicadas.)
Escrito por Nilto Maciel às 13h40
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EPITÁFIO
Nilto Maciel
Aqui jaz quem sempre se sentiu
apenas um punhado de ossos
e carnes organizados,
que um dia seriam repasto
de seres menores.
E nada mais é,
a não ser lembrança.
Logo nada será,
nem mesmo um ex-ser,
a não ser parte do Nada.
Escrito por Nilto Maciel às 15h37
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AO FIM DA NOITE
Ao Fim da Noite, blog de Jorge Mendes, é para ser visto, lido e divulgado. Anotem, por favor: http://aofimdanoite.zip.net
Vejam trecho de um dos contos de Jorge:
concreta
você não é ninguém e eu poderia ter sido alguém e o caminho entre nós é o amor
john fante
antes de tudo ela é articulada. usa franjinha assimétrica de corte desestruturado. chanelzinho. penugem na nuca e brinquinho de safira nas orelhas (abanadas, as orelhinhas). rosto do kafka tatuado no ombro. seios de maçã portuguesa. ar de menino malcriado. andrógina e fresca. gosto dela assim. uma perversidade, é claro.
Escrito por Nilto Maciel às 15h35
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TESTAMENTO
Nilto Maciel
Deixo meus teres, meus haveres todos,
minhas migalhas, trastes, bugigangas
para os museus de minha terra pobre.
Deixo meus livros, meus cadernos velhos
para as crianças, quem quiser viver
as emoções que a vida me ofertou.
Deixo meus versos, minhas rimas pobres
pros namorados mais apaixonados
e pros desesperados mais sinistros.
Deixo meu próprio desespero inútil
para abalar o dia-a-dia fútil
dos sossegados mais amordaçados.
(Continua)
Escrito por Nilto Maciel às 13h40
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(Continuação)
Deixo o amor mais amoroso e puro
para a mulher mais bela e mais difícil
– a ninfa branca de meu bosque escuro.
Minha amargura deixo repartida
em cada taça reluzente ou baça
dos tristes seres que jamais gargalham.
A solidão mais minha deixo dada
para os que nunca sós viveram, foram;
para a ciranda, a festa, o carnaval.
Minha descrença lego piamente
aos pobres e iludidos pela santa
igreja madre do menino-deus.
E finalmente deixo minha vida
para os mortais iguais a mim, e aos vermes
– a doce vida amarga que adorei.
Escrito por Nilto Maciel às 13h39
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Mensagem de Robson Ramos
Caro Nilto,
Há algum tempo, recebi sua remessa, mas apenas agora pude ler com calma. Gostei bastante da revista e do livro (mini-livro?). Seus contos me ganham por um fato: a forma de contar. Não sei, com o tempo, a Literatura tem perdido um pouco do "rebolado" de contar, talvez eu não consiga me expressar claramente, mas, trocando em miúdos, isso é um parabéns. E eu realmente sinto que outro ensaio seu fique no mundo virtual, esse último do conto cearense. É de dar dó, mas tente publicar, para não correr o risco de perder uma obra dessa nas vastidões obscuras do mundo virtual. Espero um dia contar histórias como as suas, com essa simplicidade de espectador e perícia de conhecedor. Abraço, Robson Ramos. 29/5/2007
Escrito por Nilto Maciel às 13h35
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APOCALIPSE
Nilto Maciel
Estrelas se apagaram dos cinemas
na grande noite de terror nos céus.
Revoluções e heróis morreram todos,
viraram suvenires, camisetas.
Deus está morto, desaparecido,
veneram todos automóveis caros.
Além, no horizonte, nada resta,
nem o infinito, nem a esperança.
O amor é sem sentido, só palavra
– nem vale a pena se matar por ele –
e amar é verbo sem declinação.
A eternidade apodreceu no charco
e nenhuma ilusão sobreviveu
ao nosso apocalipse final.
Escrito por Nilto Maciel às 17h47
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