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SAUDAÇÃO A ARMÉNIO VIEIRA
Henrique Marques-Samyn
O mundo dos prêmios literários divide-se basicamente em três territórios: a vasta região dos favorecimentos, o levemente menor campo das arbitrariedades e o pequenino vale da justiça. Nesse último território, inscrevem-se os raríssimos prêmios que merecem ser levados a sério: os que efetivamente são atribuídos levando-se em conta o mérito dos autores escolhidos, e que cumpre ademais a missão de revelar grandes valores esquecidos ou ignorados. É isso o que tem feito o Prêmio Camões, consolidado como um dos mais importantes da contemporaneidade precisamente por galardoar ora figuras cujo mérito é indiscutível e reconhecido – como João Ubaldo, Lygia Fagundes Telles e Eugénio de Andrade, por exemplo – ora valorosas figuras que carecem de uma justa projeção internacional – como o último premiado, o cabo-verdiano Arménio Vieira. Congratulações, portanto, ao júri, que neste ano foi formado por Marco Lucchesi e Ruy Espinheira Filho, brasileiros; José Seabra Pereira e Helena Buescu, portugueses; pelo moçambicano Luiz Carlos Patraquim e por Corsino Antônio Fortes, conterrâneo de Arménio Vieira que, pode-se supor, deve ter sido decisivo para a escolha.
UM POEMA E UMA (BREVE) LEITURA
POEMA
Mar! Mar! Mar! Mar!
Quem sentiu mar?
Não o mar azul de caravelas ao largo e marinheiros valentes
Não o mar de todos os ruídos de ondas que estalam na praia
Não o mar salgado dos pássaros marinhos de conchas areias e algas do mar
Mar!
Raiva-angústia de revolta contida
Mar!
Siléncio-espuma de lábios sangrados e dentes partidos
Mar! do não-repartido e do sonho afrontado
Mar!
Quem sentiu mar?
(1962; em «Vozes poéticas da lusofonia», coord. Alice Brás e Armandina Maia, 1999)
Um instigante jogo literário abre o poema: a incessante invocação do mar, um dos mais importantes motivos na história da poesia lusófona – presente, aliás, já entre os trovadores medievais – é interrompida por uma provocante indagação. Ao questionar “Quem sentiu mar?”, o poeta rompe o sentido positivo da evocação, abrindo espaço para as negações que surgem nas estrofes seguintes e que conduzem a uma problematização do motivo central do poema. O “mar” sobre o qual se fala aqui não é aquele mar histórico ou presente nas epopeias (“o mar azul / de caravelas ao largo / e marinheiros valentes”), nem o mar como um cenário percebido por um olhar impressionista ou naturalista (“Não o mar de todos os ruídos / de ondas / que estalam na praia // Não o mar salgado / dos pássaros marinhos / de conchas / areias / e algas do mar”); trata-se ainda de outra coisa. A retomada do tom invocatório (“Mar!”) abre finalmente espaço para que o poeta explicite que esse é um mar-símbolo, projeção anímica da própria subjetividade humana, representação que nada tem de nostálgica: trata-se de um mar revolto (“Raiva-angústia / de revolta contida”) e violento (“ Siléncio-espuma / de lábios sangrados / e dentes partidos”), espelho portanto de um estado da alma cujo sentido político logo se torna claro: é este o mar “do não-repartido / e do sonho afrontado”; portanto, o mar daqueles que ousam sublevar-se e lançar-se ao combate, ainda que haja nisso a expectativa da destruição – como as ondas que arrebentam na praia, esfazendo-se em espuma. E é assim, inteiramente ressignificada, que a pergunta ressurge no desfecho do poema: “Quem sentiu mar?” Quem sentiu em si esse mar, quem se sentiu como o mar?
-- Blog: http://marques-samyn.blogspot.com Twitter: http://twitter.com/marques_samyn /////
Escrito por Nilto Maciel às 14h16
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Faca palavra
Clauder Arcanjo
A potência da faca habita no que entorta: lâmina enferrujada, nume em resposta. A força da palavra reside no que sangra: punhal sem gume, letra, enfim, tatuada.
Macaé-RJ, 23/05/2009 /////
Escrito por Nilto Maciel às 15h11
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