Aldemar Norek
angras retinas onde
em mim sangra a neblina intensa
em que a noite ancha
se inclina
ao brilho fátuo (sobre) de outros olhos-mina
de estrelas-lumes
(mira) onde sobejam
escolhos
luz artificial (intrusa) sob a (mesma) neblina
oscila
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Aldemar Norek
angras retinas onde
em mim sangra a neblina intensa
em que a noite ancha
se inclina
ao brilho fátuo (sobre) de outros olhos-mina
de estrelas-lumes
(mira) onde sobejam
escolhos
luz artificial (intrusa) sob a (mesma) neblina
oscila
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Tenini (Teresinha Miracy Canini Ávila) publicou o livro Esculpindo Sonhos (Porto Alegre, RS, Editora Alcance, 2006). São poemas e crônicas ilustrados pela própria artista. O editor Rossyr Berny, nas abas, assegura: “Não bastasse seu brilho de pintora, artista plástica singular, dando vida a seus quadros, em cores ou preto e branco – a poeta em prosa e verso se mostra inteira, desnuda-se com sobrado requinte poético e plástico”.
CASA DAS MUSAS - Revista de Filosofia, Literatura e Comunicação
NESTE NÚMERO:
1. Traduções inéditas de Italo Calvino, Chantal Maillard e Alberto Manguel.
2. Entrevistas com Daniel Piza, Marcelino Freire e Márcia Tiburi.
3. A cultura e as idéias do Substantivo Plural e a I Bienal
Internacional de Poesia de Brasília.
3. A Teoria da Inspiração, de Bráulio Tavares
4. Nietzsche e a estrela bailarina, por Pablo Capistrano.
5. Mia Couto resenhado por Florence Dravet.
6. Conto do Nilto Maciel; Crônica do Samarone Lima e Crítica de
Cinema, da Liana Aragão.
7. A poesia de Ada Lima.
8. Um cinema desiludido, por Sebastião Vicente.
www.casadasmusas.org.br
Pela manhã
uma chuva de ligações
não me deixa dormir.
Quebro o telefone,
mas continuo assustada.
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Com este título, Caio Porfírio Carneiro publicou, em 2008, um pequeno livro (32 páginas), com o apoio cultural de Amigos do Livro. São 25 deliciosos contos curtos. O contista explica a origem deles: “Estas historinhas ligeiras foram escritas, uma por dia, durante umas férias. Respingos literários? Não sei. Relendo-as, resolvi tira-las do anonimato do meu arquivo – provavelmente o mais desorganizado do mundo – e dá-las de presente aos amigos. Como tudo me nasceu do coração, espero que não considerem um presente de grego”.
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Clauder Arcanjo
— Foi alta noite... Madrugada? Não sei, poderia ser. Mas, que já era noite
alta, isso era!
— Você teve medo, Sisógenes?
— Só um arrepio forte, de alto até embaixo da espinha, pois não sou homem
de medo.
— Teve vontade de correr, então! Essas coisas põem a gente de pé na bunda.
Acaba nos tirando dos modos, sabe?...
— De início, não tive pernas, não tive...
— No entanto, elas tremeram!...
— Ai!... E como!... Puxa, e como!...
— Agora me conte tudo. Tintim por tintim, viu?...
— Alta noite. Noite alta. Deitado, à cata do sono, mexia-me na rede. E
nada de dormir; a rede, um espinho. De repente, um ruflar de asas. Forte,
muito forte. Pensei em morcego, daqueles grandes que tinha na casa velha
da fazenda. De ponta a ponta das asas, quase meio metro. Negro, no negror
da noite. Arregalei os olhos, e juntei depressa os punhos da rede. Passado
um pedaço, botei um cantinho do olho direito na fresta que abri, correndo
a vista pela sala, esgaravatando o telhado, cada caibro e cada ripa... e
nada. Não reuni mais coragem para abrir a rede. O suor escorria-me pelas
costas nuas, os músculos se retesaram, em ânsias de cãibra. Foi quando se
deu outro voejar; mais próximo, desta feita lambendo o fundo da rede.
Encolhi-me, um cotoco de gente. Se os dentes fossem afiados e graúdos
perfurariam o pano, e encontrariam a minha carne e as minhas veias,
pensei. Alta noite, sozinho naquela casa, ninguém daria definição, caso eu
gritasse. Vi-me morto, sugado, sem nenhum pingo de sangue. Encontrado três
dias depois, devido ao mau cheiro, à fedentina, à podridão dos meus
restos. Nem haveria velório, seria tangido para o fundo da cova, enterrado
sem rezas, sem missa de corpo presente, pois todos me desejariam logo
debaixo de sete palmos de terra. O morto em exéquias apressadas, todos de
lenço nas ventas a fingir emoção, mas, na verdade, na verdade, a fugir do
mau cheiro. Tanto pensei em tudo isso, que juntei forças e saltei da rede,
um pulo e uma carreira. Levei penico, porta, com tramelas e tudo, banco,
tamborete, e o jarro grande do jardim. Tudo nos peitos. Sem falar que, no
desespero, pisei no rabo do gato, e chutei para longe o coitado do
vira-lata, julgando-o um aliado do dito-cujo... Enfim, foi um destroçar de
coisa e de bicho, que só parei agora, compadre, sete léguas e meia depois.
Não me peça para lá voltar. Diga ao meu cunhado que pode ficar com tudo.
Desse tipo de herança, quero distância, prefiro ser pobre.
— Mas, Sisógenes!...
— A pobreza, compadre, ao mau agouro. Comigo não, comigo não!
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A Fundação Edson Queiroz/Universidade de Fortaleza publicou, em 2008, o livro de poemas O Sol de Cada Coisa, de Batista de Lima. No prefácio – “Fulgurações de um sol intemporal” –, a professora e escritora Aíla Sampaio diz: “A partir do título, ‘O Sol de Cada Coisa’, já se entrevê, nos poemas deste novo livro de Batista de Lima, um raio de luz a perpassar, como se fosse a claridade o estro de sua criação, mesmo que imersa na daulidade própria da condição humana. Com uma profunda crença na vida e no amor, o poeta acende com as palavras a luz, invisível aos olhos comuns, que subjaz em tudo”.
Cyro de Mattos *
Dão conta os cronistas de cinco espécies de provas nos primeiros Jogos Olímpicos: corrida, saltos, luta, lançamento de disco e lançamento de dardo. Vê-se desse modo que há milênios o ser humano vem procurando mostrar agilidade, força corporal e ímpeto como qualidades de seu heroísmo. As Olimpíadas ofereciam também concursos de música e eloqüência. Dava-se assim aos poetas, músicos e escritores oportunidade para que ficassem famosos. A fama dos vencedores espalhava-se pelos pontos distantes da Grécia.
O atleta supera os limites nos Jogos Olímpicos. Corre como o vento, ora resistindo, ora saltando barreiras. O importante é o corpo desenvolver na raia o ritmo nervoso, para superar desejos de ser tanto quanto o raio.
O amor alcança graça e beleza no vazio do espaço quando se trata de salto ornamental na piscina. Pássaro que desce em harmonia de músculos, pele infiltrada de sonho que não recusa o prazer em contato com a água, tornando-se mergulho divinizante da matéria inebriada por sublime conjunção de um instante esplêndido.
A força vira um guindaste quando sustenta o peso enorme com habilidade, um e outro se unindo no impulso da esperança, que quer se consagrar vitoriosa no pódio. Esforço que se nutre do ideal de ser alguém poderoso, reconhecer-se inscrição no que é entrega com todas as forças que se consegue reunir, para sentir finalmente que em volta a vida é a marca da conquista. Pelas mãos e pés num movimento de peixe, que agita a água, o atleta consegue ser lancha. Ao ver a bandeira subir vagarosa sob o hino da pátria, essa sensação que tenho na cadeira diante da televisão é canção de bonança.
As mãos ficam leves no levantamento, defendem com denodo, descem com violência na bola, como se quisessem enterrá-la na quadra adversária. Não se alimenta de indecisões o tempo que urge a vitória, balançando-se com a platéia que torce entusiasmada. As mãos ficam rápidas, fazem coisas incríveis quando a bola tem por meta ser lançada em fração de segundos para cair na cesta.
Nas Olimpíadas surgem alguns heróis inesperados, mas o que predomina como regra é a vitória daqueles que são anunciados como favoritos. Técnicos e atletas dizem que preparo físico, precisão e vontade são requisitos essenciais para quem quiser ocupar o pódio. Uma das coisas que mais impressiona no maior espetáculo esportivo deste planeta é esse milagre de fazer do mundo uma ciranda. A vida, a vida, a vida.
Unem-se povos do mesmo sangue, desunidos há décadas por forças ideológicas, como no caso das Coréias do Norte e do Sul em Seul.
Acontecem milagres que surpreendem a humanidade. Nos jogos realizados na Alemanha foi derrubado o mito da superioridade da raça ariana diante de Hitler quando o atleta negro americano Jess Owenn correu entre atletas brancos e venceu as corridas. O jogador Mágico Johnson jogou com a aids em todas as partidas, transmitindo só felicidade com jogadas incríveis, que culminavam em cestas maravilhosas.
O que ressoa das Olimpíadas como hino do convívio ideal e do amor é esse espírito pelo qual se mostra que o ser humano quando quer pode ser um companheiro alegre, tão do mundo. Não importa a raça, a vida em volta é uma dança. Plena, sem vazios, contradição e exclusão.
Em espaço rico é ocupada pela harmonia de ser prazer com sustos magníficos, que se reconhecem nítidos no lado azul da canção. Copula a vida no vôo, salto, nado, mergulho, dardo, arremesso, corrida, em quantas formas se invente como uma flor ou bola que no mundo rola. As Olimpíadas acontecem para que a vida em luz humana se recuse a andar por aí no mundo com cada um só pensando em si.
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Em 2000 se publicou em Londrina, Paraná, por Atrito Art Editorial, a 12ª Antologia de Poetas Londrinenses. Com prefácio de Ricardo Corona, apresenta poemas de Ademir Assunção, Augusto Silva, Bernardo Pellegrini, Carlos Ribeiro, Karen Debértolis, Márcio Américo, Marcos Losnak, Mário Bortolotto, Maurício Arruda Mendonça, Nelson Capucho, Neuza Pinheiro e Rodrigo Garcia Lopes. O prefaciador diz: “Neste 12, os poetas não se rendem ao discurso de esgotamento da criatividade e imaginação. Ao contrário, estão abertos para o mundo, e, ao invés de evitarem o seu tempo escondendo-se atrás da linguagem, nela incorporam suas contradições e conflitos”.
Ana Carolina Bianco Amaral
“A um regionalista desregionalizado”
dizem que nos sertões agrestes
a peste, a cabra e a seca predominam
mais que a vontade do homem
além de cactos desejos
o jagunço resplandece na transcendência sol
seus quereres atinam para o refrescante enredo
da chuva que não nasce
esse mesmo homem da terra
nascido dela, parte dela
pretérito
por pura vingança não chora como os outros
mas agride a seca escaldante
para que suas retinas sempre alojem
as águas de um segredo
que minguará o mundo
regando as sementes que brotarão dessa terra
no dia seguinte.
De P. J. Ribeiro se editou Contos Sob Suspeita (Cataguases, MG, Totem Edições, 2008). Joaquim Branco, nas orelhas do livro, se refere ao contista como “exímio criador de peças curtas de ficção”. E explica por que: “Em seu laboratório, constrói um mundo de estilhaços cortantes de vida e morte, lama e alma, corrosões e êxtases. (...) Feito de um imaginário com telhados de vidros, balés africanos, mundos melados, urina na calçada, lanças encravadas na cabeça – seu texto, às vezes curto, ora curtíssimo, aponta para um humor ácido que corrói até a última entranha, à procura de saída para o entendimento humano”.
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Urik Paiva
Madrugada serena numa Fortaleza que foi dormir cedo, logo após a última cena da novela das oito. O semáforo está vermelho para o motorista que, distraidamente, reflete sobre os acontecimentos do dia que passou, como quando um garoto magricela deixou cair indolente um volume de Em Busca do Tempo Perdido. Esse título nunca lhe disse muita coisa, mas em poucos instantes a simples junção de palavras, ao mesmo tempo suave e arriscada, conduz sua mente a recônditos inesperados da memória, a uma juventude que avistava de longe a biblioteca vazia e os livros empoeirados, mas que gostava secretamente de ouvir e escrever histórias. E, mesmo o sinal já estando verde, ele deita a cabeça e as mãos sobre o volante, como se perguntasse a si mesmo e ao mundo: É preciso?
A interrogação pareceu suficiente para que, um pouco distante dali, na Praça do Ferreira, o primeiro livro caísse sobre o solo. Um velho exemplar de A Normalista, desses que se encontram nos sebos - as páginas amareladas e a capa levemente rasgada. O fato poderia ter passado despercebido, não fosse o olhar vigilante de um bêbado que vagava pelo Centro. Ele olha desconfiado para cima, temendo acreditar que o livro houvesse realmente despencado do céu. Mas não pensa muito: sua vista encontra mais alguns volumes caindo do alto, primeiro lentamente, à decisão dos ventos, depois com a força de uma tempestade. E não se precisará de olhos tão atentos para se notar que toda a Fortaleza sofre a invasão de milhares de publicações que descem caudalosamente do firmamento.
De muitas cores ou de cor alguma. Grandes ou pequenos. Pesados como apenas os livros podem ser. Caem sobre os telhados das casas, sobre as lajes dos edifícios. Estilhaçam os tetos de vidro. Rompem os fios de eletricidade. Acumulam-se nas calçadas, aos pés dos portões. Amassam os carros nas ruas. Cobrem o azul do asfalto com capas e contracapas. Chegam à velha cidade como se fossem gotas d'água há muito acumuladas no interior de densas nuvens.
Aos andarilhos da noite resta se proteger da estranha chuva debaixo de árvores e marquises. Mas aos que permanecerem ao relento, esperando alguma explicação para tudo isso, o fenômeno castigará com fortes pancadas de livros. A Divina Comédia atingirá o velho mendigo que costuma comer o que encontra no lixo. Ulisses rachará o crânio da prostituta oferecida na esquina da Praia de Iracema. Toda a obra de Machado de Assis ferirá os corpos dos que dormem debaixo de jornais, enquanto pequenos livros de Dalton Trevisan arranharão os casais que insistem em fazer amor na rua.
E ainda nos próximos minutos desse dilúvio, tomos e volumes de todas as épocas e línguas incidirão sobre a metrópole. Sófocles entrará pelas janelas abertas dos cômodos, enquanto Nietzsche perfurará o forro dos tetos. E Hamlet deformará a face de quem ousar pôr a cabeça para fora de casa. Gregório de Matos partirá os vitrais da Sé, ao mesmo tempo em que Jack Kerouac se espalhará velozmente pelas rodovias e Lima Barreto cobrirá o Cambeba e o Vila União. Exemplares de A Dama das Camélias inundarão a Barra, deixando o Rio Ceará revestido de páginas. E Pessoa e Eliot e João Cabral cairão sobre os ombros dos homens que caminham pelas ruas. E Borges romperá as estantes das bibliotecas. E Dostoiévski destruirá as cadeias e perfurará os corpos dos que lá dormem. E Sade fará em pedaços as velhas senhoras beatas, enquanto os livros de José Alcides Pinto se derramarão sobre a General Sampaio.
E há que se distinguir o poeta Mário Gomes dançando ao cair de Dom Quixote e Kafka jorrando sobre o Palácio da Luz. E há que se fechar os olhos para ouvir com profundidade o ruído desse infinito contínuo de folhas vindas do céu. E há que se perceber a criança muda e desdentada que, no primeiro lampejo de manhã, quando centenas de corpos estarão apodrecendo no solo de Fortaleza - o sangue dos mortos brilhando à luz do sol, abrirá uma pequena edição de O Pequeno Príncipe e sorrirá, feliz.
urikpaiva@yahoo.com.br
www.literariedades.blogspot.com
www.culturaergaomnes.blogspot.com
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Saiu por Edições Galo Branco, 2008, Rio de Janeiro, 50 Poemas Escolhidos pelo Autor, de Linhares Filho. São poemas dos seguintes livros: Sumos do Tempo (1968), Voz das Coisas (1979), Frutos da Noite de Trégua (1983), Tempo de Colheita (1987), Andanças e Marinhagens (1993), Rebuscas e Reencontros (1996), Cantos de Fuga e Ancoragem (2007). Linhares Filho, um dos nomes mais prestigiados da Literatura Cearense, é poeta e ensaísta. “Sua poesia se apresenta, em quase todos os momentos, em roupagem tradicional, sendo, porém, uma obra talhada na modernidade”, comenta-se nas abas do volume. No final, além da bibliografia do poeta, há diversos trechos de comentários à sua obra.
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Aldemar Norek
Amhearst,
Stratford-upon-Avon, Nishapur,
Lisboa, Itabira, Buenos Aires, São Paulo,
Málaga, Nova York, Salvador, Pasárgada,
Recife, Rio de Janeiro,
e você aí nessa cidade-fantasma
com o braço erguido
em frente ao muro, no espaço
do instante em que o grafite
incompreensível que sua mão
projeta é toda a sua
vida.
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Eunice Arruda
Para esquecer esta
dor
- transformá-la
Para
dor
- transformá-la em poesia
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